13 de abril de 2008

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Uma noite destas quando me deitei para dormir, lembrei-me do primeiro dia que fui à escola. Mais uma noite sem dormir. Enquanto dava voltas na cama, as memórias assaltavam-me a tranquilidade. No primeiro dia de aulas deram-me um desenho para pintar. Pintei todo da mesma cor, lilás. Brincava muito. A professora mandava-me calar muitas vezes, nas reuniões dizia à minha mãe que eu era inteligente mas muito faladora e refilona.

Fecho os olhos, tenho 8 anos e brinco aos power rangers (serei o amarelo?), brinco na terra, dou voltas à escola (tenho praticamente a certeza que sou o amarelo). Numa aula em que não estou atenta a professora manda-me continuar a ler o texto que estavam a ler, continuei do sitio certo e ela disse “a tua sorte é seres inteligente”.

Dizem que as crianças são cruéis. Se calhar até são, quanto a mim, a crueldade fui conhecendo à medida que ia crescendo. Não me lembro de ser infeliz nessa altura. Não me lembro de brincar sozinha no pátio. Dava-me bem com todos. Só me lembro de bons momentos. Se calhar, os maus até existiram, mas num qualquer exercício de esquecimento, recalquei-os. Talvez, mas que mais poderei dizer, na minha escola primária, eu era feliz.

Terá sido depois disso? É provável..a mudança. Tantos professores, diferentes. Tantas pessoas, diferentes. Não me sentia tão confortável ao caminhar nos corredores. No início de cada ano, as primeiras aulas, aquelas em que tudo ainda é novo, assustavam-me. No entanto, talvez nunca ninguém tenha percebido. Conhecia e fazia amigos novos. Os professores (maior parte) gostavam de mim. Sei que dizia disparates que os faziam rir.

De repente, estou numa aula de Francês do 9º ano, a professora, enquanto na sala todos gritam e falam, pergunta-me “então e está tudo bem contigo? De certeza?”. Sim, já passou. Volto um ano atrás, com a mesma professora, numa aula de Português, pede para escrever-mos uma noticia, no lead, sai-me qualquer coisa do género

«Ontem à noite, na rua tal, um bando de brancos atacou um bando de pretos e quem venceu foi um bando de amarelos”.

A professora riu-se, deve ter abanado a cabeça como quem diz “esta miúda não tem emenda”. A mesma professora que no ano antes me deu um dos poucos 5 que tive, porque todos me diziam “vais ter um 4+++++, não tens 5 por causa do comportamento.” E eu ria-me. Sempre gostei de me rir.

Estou agora no 6º ou 7º ano, uma colega problemática tem um arrufo com a professora, vai para a rua. Quando sai a professora, da sua mesa para a minha, diz-me “devias falar com ela, ajuda-la, dar-lhe o exemplo, tu melhor que ninguém sabes como é ser diferente”.

Sabia. Não sabia. Sabia. Não me rio.

Tenho 7 anos e estou na sala de aula

- Quem quer começar a ler?

- Eu, senhora professora.

E leio. Porque lá na minha sala, eu até sou das que lê melhor.

2 comentários:

*alma de poderosa* disse...

gostei...gostei mm..
por momentos pensei k tava a ler um kk escritor famoso..dakels k a gent gst mt..eu e tu..
continua..na tua diferença k t torna tao especial!
bjooo

p.s: nk gstei dos power rangers..k horrror!!

I'm a Saint! disse...

Pareceu-me que te ias rindo menos... melhor, na primária era tudo muito fácil. Depois mudaste de escola e ao longo dos anos foram te surgindo dúvidas. Tudo muda, mas não deixaste de sorrir. Além disso, toda a gente vê que és diferente, uma diferença especial. Escondes a tristeza e mostras um sorriso.

take care