7 de abril de 2008

Quem é o louco afinal?

“(...) O que é a realidade?

- É o que a maioria achou que devia ser. Não necessariamente o melhor, nem o mais lógico, mas o que se adaptou ao desejo colectivo. Está a ver o que tenho ao pescoço?

- Uma gravata.

- Muito bem. A sua resposta é lógica, coerente com uma pessoa absolutamente normal: uma gravata!

» Um louco, porém, diria que eu tenho ao pescoço um pano colorido, ridículo, inútil, amarrado de uma maneira complicada, que acaba por dificultar os movimentos da cabeça e por exigir um esforço maior para que o ar possa entrar nos pulmões. Se eu me distrair quando estiver perto de um ventilador, posso morrer estrangulado por este pano.

» Se um louco me perguntar para que serve uma gravata, eu terei que responder: absolutamente para nada. Nem mesmo para enfeitar, porque hoje em dia ela tornou-se o símbolo de escravidão, poder, distanciamento. A única utilidade da gravata consiste em chegar a casa e tirá-la, dando a sensação de que estamos livres de alguma coisa que nem sabemos o que é.

» Mas a sensação de alívio justifica a existência da gravata? Não.Mesmo assim, se eu perguntar a um louco e a uma pessoa normal o que é isso, será considerado são aquele que responder: uma gravata. Não importa quem está certo – importa quem tem razão. (...)”

Paulo Coelho em Veronika Decide Morrer

2 comentários:

Mikael disse...

De todos os livros do Paulo Coelho que li tenho que confessar que o Veronika foi sem dúvida o que mais gostei e aquele que não hesito em recomendar aos amigos que querem ler alguma coisa do Paulo Coelho. Mas para ser sincero já não me lembrava desta passagem, mas aposto que quando a li pela primeira vez devo ter concordado inteiramente com ela. Agora com mais alguma maturidade (espero eu lol) "embirro" com algumas partes. Primeiro, detesto a classificação de normal. É algo quase visceral e que como tal não consigo explicar, nem quero :P
Talvez seja "normalmente louco", acho que daria uma boa definição.
Quanto à gravata, a maioria das vezes que a uso é por opção (se bem que por vezes o trabalho "exige" alguma formalidade, mas dessas vezes nada melhor que juntar à gravata umas allstar para quebrar a monotonia LOL). Acho que com o passar do tempo a gravata, apesar de inútil como peça de roupa per se, está a ganhar um novo estatuto como puramente estético. Cada vez se vê homens e mulheres a usá-la por pura estética.

Por fim, e porque o comentário já está longo, fico a pensar no título do post. Louco é aquele que no final sabe viver segundo regras que muitas vezes são só suas. (como eu gostava de ser louco mais vezes...)

Beijo e desculpa o testamento :P

perdida disse...

mikael

Os teus testamentos serão sempre bem vindos =)

pois é, tal como tu tb li este livro há já algum tempo e foi sem dúvida dos meu preferidos.

Concordo contigo no uso da definição "normal", eu por mim, vou mais pelo "saudavelmente louco" ou "loucura não tão saudável".

A gravata, tens razão quando dizes que hoje em dia é usada mais por opção e vista como um objecto estético mas acredito que talvez quando o livro foi escrito não era vista assim e daí a analogia..

Mas acho muito bem que, homens e mulheres, hoje em dia usem gravatas a toda a hora. É uma coisa agradável de se ver =P

Gostei deste livro porque me fez ver a realidade de outra forma e tirar uma conclusão, para mim, loucos serão os que vivem consoante regras que nem sequer acreditam, mas que as seguem por ser o socialmente aceitável.

Assim, penso que, para a sociedade, loucos serão aqueles que tal como dizes vivem segundo as regras que são só suas.

Ser louco aos olhos da sociedade é um desafio mas será também uma prova em como pelo menos se vive com o que se acredita.

Obrigada pelo comentário =) ****